Categorizado | Novidades

Maravilhosa Graça

Enviado em 23 março 2010 por Coracy

 

“Hoje é o dia da graça;hoje é dia da caça e do caçador…” (Chico Buarque)

A tarde nublada e “marasmenta” pós tempestade sugeria que hoje todos nós ficaríamos em nossos espaços guardadinhos e esperando o resto de chuva ir embora. Dentro da coordenação tudo seguia na santa rotina de cada dia e nas salas as crianças estavam frustradas por não poderem aproveitar a tarde lá fora e tentavam se contentar em pintar as figuras gigantes de palhaços para o nosso tão esperado Dia de Viver.

Na sala da psicóloga, dividíamos mais uma difícil situação dessas que a cada dia nos desafiam mais e mais a não nos retirarmos da luta, quando de repente o sorriso escancarado da secretária anuncia na porta: “Gente! Corre! O Circo Chegou!!”

E aí foi um rebuliço só. Gente correndo de um lado pro outro pra limpar o nosso pátio, que estava alagado e intransitável, todo mundo reunido numa força tarefa pra deixar o espaço apresentável; o espetáculo da graça havia chegado, como sempre sem aviso prévio, sem se esperar. Depois de muito rodo daqui, vassoura dalí e correria pra acolá tudo estava pronto pro circo começar.

E as crianças saiam das salas em filas,como formiguinhas saindo do seu formigueiro para uma grande celebração. E foram se acomodando por todos os espaços, ajeitando as cadeiras, se espremendo nas escadas, até fazer com que todos estivessem ali. Ninguém, absolutamente ninguém ficou de fora. Os olhos ansiosos de todos aguardavam a surpresa que surgiu atrás de um caminhãozinho velho e colorido. Não trazia em si nenhuma promessa, trazia uma alegria singela que encontrou morada no picadeiro da Viver.

E eu, preocupada em organizar o público para “recepcionar” a graça da trupe. Que tola. Me esqueci por um momento que graça não espera convite, ela chega, se estabelece, presenteia e não pede nada em troca. Risada é conseqüência pura e simples.

Sob um coro de palmas e com um anúncio genuinamente popular de sanfona,triângulo e tambor a trupe da graça surgiu atrás do caminhão singelo. As crianças não sabiam as letras de todas as canções, mas aquele som e aquela alegria eram inconfundíveis para cada uma delas e elas acompanhavam com os olhos, com as mãos, com o corpo. Tudo cantava, tudo por um momento se tornou encantado e “a minha gente sofrida despediu-se da dor pra ver a banda passar cantando coisas de amor…” e o sol concordou que o espetáculo começasse,atestando a alegria com seus raios no picadeiro, na testa e nos olhos de todos nós.

E veio todo mundo. Crianças, cozinheiras, catadores, passantes, mau encarados, tímidos, bem humorados, trabalhadores,desempregados,pais,mães, irmãos mais velhos e irmãos mais novos. A cerca ao lado virou arquibancada dos marmanjos de uniforme, os corredores se encheram, a cozinha estava em festa. Todo mundo junto, sem rótulos, unidos apenas pela graça, pela risada, pela pureza da resposta das crianças…Como a vida é bonita né?

E no meio de tanta risada, foi a lágrima que me assustou a face. Acreditem. Me percebi tão mergulhada no meio de tanta alegria pura e gratuita e no meio da canção desatei a chorar. “Como poderei viver;como poderei viver ;sem a sua, sem a sua, sem a sua companhia?” Fiquei ali, só pensando nisso um tempão. Como é que eu conseguiria viver, se não fosse essa nossa VIVER…

Só tenho mesmo que ser grata por essas visitas maravilhosas da graça tão pura em meio a tantas tardes nubladas e por saber que a VIVER é um canal transformador,sob todos os aspectos…

Eita vida bonita né gente?!

Por Jackeline Correa

Leave a Reply